|
|
|
|
Mutirão da Vida Intérprete(s) Principal(is):
Xangai
-
Banda Cumeno cum Cuentro
Compositor(es) Principal(is):
|
KCD019
|
| |
|
Lançamento em CD da edição original do primeiro LP solo de Xangai pela Kuarup, incluindo a versão completa da Natureza, de Xangai e Ivanildo Vilanova, e de O Menino e os Carneiros, de Geraldo Azevedo e Carlos Fernando. Totalmente remasterizado por Luigi Hoffer, e nova capa de Janine Houard. Direção musical de Jaques Morelenbaum.
|
|
|
|
|
| |
| |
| Ficha Musical |
 |
|
| |
| |
Banda Cumeno cum Cuentro:
Jaques Morelenbaum (celo)
Alex Madureira (viola)
Marcelo Bernardes (sopros)
Mingo (percussão)
participações especiais
Geraldo Azevedo (violão em 3)
Hélio Contreiras (violão em 6
Marquinhos (sanfona em 2)
Marcos Amma (percussão em 2,4,6,9,10,11)
Paula Morelenbaum (vocal em 8) |
| |
| |
| |
| Ficha Técnica |
 |
|
| |
| |
Produzido por Mario de Aratanha e Xangai
Direção Musical de Jaques Morelenbaum
Arranjos: Xangai e a banda Cumeno cum Cuentro
Assistencia artística: Janine Houard
Arregimentação: Grace Elizabeth
Gravado e mixado no estúdio Porão, Rio de Janeiro,
em junho-setembro de 1984, por Filipe Cavalieri.
Contra-regra: Bira Dantas
Masterizado para CD por Luigi Hoffer (Microservice) em 1998
Capa e Foto: Janine Houard
Agradecimentos especiais: Egberto Gismonti, Ivair Vila Real,
Ney Távora, André Geraissati. |
| |
| |
| |
| Letras |
 |
|
| |
| |
Fábula Ferida
Saquarema, siriema
Levantando o dilema
Ave-pássaro-cidade
Construindo problemas
Riso que me invade
De feliz sinto pena
Minha fábula ferida foi
Pelas feras da arena
Minha vaidade
Fora deste sistema
Só lá floram
Lírios doutro poema
E eu só de saudade e sede
Aqui pela cidade
Corro pelos quatro cantos
Canto felicidade
Tarde que me arde
Traga noite serena
Quando a madrugada tarda
Vem revogar nossas penas
Só uma verdade
Ameniza esse drama
Cara a cara quando a cura é divina
Abro a boca pelo mundo
Quero água
Saciar minha sede
Tenho mágoa
Peixe não fica na rede
Que rebenta
Tempo não tem mais idade
Resta um resto de esperança
Se desprendeu do ar
Rosto antigo de criança
Novamente que virá
Trabalhadores do Metrô
Vivendo na cidade grande
Na força da mocidade
Tinha ofício de armador
Armou do ferro da férrea necessidade
Pontes praças e pilares
Riquesas não desfrutou
Depois de tudo pronto
Tudo feito tudo arrumado
No broze que foi lavrado
Só deu nome de doutor
O do prefeito, o do secretáriado
E o do grande encarregado
Seu nome não encontrou
Bate zabumba pro povo fazer fuá
Tristeza de catacumba
No forró não pode entrar
Precisaria de uma placa que seria
Bem do tamanho da Bahia
Juazeiro a Salvador
Pra que coubesse
O nome de quem merece
De quem vive construindo
Homem, mulher e menino
Que é tudo trabalhador
Bate zabumba pro povo fazer fuá
Tristeza de catacumba
No forró não pode entrar
Zabumba ê... (bis)
O Menino e os Carneiros
No tempo que eu era menino
Brincava tangendo
(chiqueirando) carneiros
Fim de tarde na rede sonhava
Belo dia seria um vaqueiro
Montaria de pelos castanhos
Enfeitados de prata os arreios
Minha vida hoje é pé no mundo
Sem temer a escuridão
Jogo laço quebro tudo
Meu amigo é meu irmão
Sou a sede de boa palavra
Sou a vida raios de sol
Tenho tudo não tenho nada
Tenho fé no coração
Só que isso tudo
Era no tempo que nós era menino
Gírias do Norte
O Zé do Brejo quando se casariô
Ele me convidariô
Pruma quadrilha eu marcariá
Marcariei uma quadrilha ritimada
Fui até de madrugada
Todo mundo cum seu pariá
Alavantuí, chã-de-dama anarrariê
Cantei côco pra valê
Todo mundo cum seu pariá
Brincarei na festa de casamento
Da filha de Pedro Bento
Na fazenda Caiucariá
O Zé do Brejo noivo muito animado
Logo depois de casado
Me pediu para cantariá
Alavantiú...
Me perguntam porque é que eu canto assim
Eu então lhes respondi
Que a minha língua não dariá
Esse negócio de dizer alavantú
Chã-de-dama anarriê
Posso me atrapalhariá
Alavantiú...
De Quinze Prá Trás
Quinze, quatorze, treze, doze,
Onze, dez, nove
Só faz lama quando chove
E enche o rio Gamum
Passu-preto que o bico tem um vinco
É o Anum
É oito, é sete, é seis, é cinco
É quatro, é três, é dois, é um
O Sapo no Saco
O papo dentro do sapo
O sapo dentro do saco
O saco cum sapo dentro
O sapo batendo papo
O papo fazendo vento
Ele Disse
Ele disse muito bem
O povo de quem fui escravo
Não será mais escravo de ninguém
Mutirão da Vida
Tanta seca, tanta morte
Nos caminhos do sertão
Meus olhos já viram coisa
De cortar o coração
A cara feia da fome
E o povo virando anão
Gente ficando louca
Sem ter água para beber
A fome comendo a fom
A falta do que comer (bis)
Eta, fim de mundo
Desgraceira, perdição
A imagem revelada pela televisão
É um coice no estômago
De toda essa nação
Cada um faz o que pode
Pra acudir nessa aflição
Desejando melhor sorte
Ao nordestino seu irmão
Mas o que a gente precisa
É terra, trabalho e pão
Revirando pelo avesso
O poder lá no sertão
Pra acabar com a penitência
De tamanho escravidão (bis)
E tem terra boa
Reclamando produção
Nas frentes de trabalho
Nas terras do fazendeiro
A gente encontra a morte
E ele muito dinheiro
Quero a vida feita vida
Vencendo a morte cruel
Vida aqui na terra
E não no reino do céu
Violêro
Vô cantá no canturi primero
as coisa lá da minha mudernage
qui mi fizero errante e violêro
eu falo séro i num é vadiage
i pra você qui agora está mi ôvino
juro inté pelo Santo Minino
Vige Maria qui ôve o qui eu digo
si fô mintira mi manda um castigo
Apois pro cantadô i violêro
só hai treis coisa nesse mundo vão
amô, furria, viola, nunca dinhêro
viola, furria, amô, dinhêro não
Cantadô di trovas i martelo
di gabinete, ligêra i moirão
ai cantadô já curri o mundo intêro
já inté cantei nas prtas di um castelo
dum rei qui si chamava di Juão
pode acriditá meu companhêro
dispois di tê cantado u dia intêro
o rei mi disse fica, eu disse não
Si eu tivesse di vivê obrigado
um dia inantes dêsse dia eu morro
Deus feis os homi e os bicho tudo fôrro
já vi iscrito no Livro Sagrado
qui a vida nessa terra é u'a passage
i cada um leva um fardo pesado
é um insinamento qui derna a mudernage
eu trago bem dent' do coração guardado
Tive muita dô di num tê nada
pensano qui êsse mundo é tud'tê
mais só dispois di pená pelas istrada
beleza na pobreza é qui vim vê
vim vê na procissão u Lôvado-seja
i o malassombro das casa abandonada
côro di cego nas porta das igreja
i o êrmo da solidão das istrada
Pispiano tudo du cumêço
eu vô mostrá como faiz o pachola
qui inforca u pescoço da viola
rivira toda moda pelo avêsso
i sem arrepará si é noite ou dia
vai longe cantá o bem da furria
sem um tustão na cuia u cantadô
canta inté morrê o bem do amô.
O Pidido / Clariô
Já qui tu vai lá prá fêra
Traga di lá para mim
Agua do fulô qui chêra
Um nuvelo e um carrin
Trais um pacote de misse
Meu amigo ah se tu visse
Aquele cego cantadô!
Um dia ele me disse
Jogano um mote de amô
Qui eu havéra de vivê
Pur esse mundo
E morrê ainda em flô
Passa naquela barraca
Daquela mulé reizêra
Onde almuçamo paca
Panelada e frigidêra
Inté você disse vã lõa
Gabano a boia bôa
Qui das casa da cidade
Aquela era a primêra
Trais pra mim vãs brividade
Qui eu quero matá a sôdade
Fais tempo qui fui na fêra
Ai sôdade...
Apois sim vê se num isquece
Quinda nessa lua chêa
Nós vai brincá na quermesse
Lá no Riacho d'Arêa
Na casa daquêle home
Feitecêro e curadô
Que o dia intêro é home
Filho do Nosso Sinhô
Mais dispois da mêa noite
É lubisome cumedô
Dos pagão qui as mãe isqueceu
Do batismo salvadô
E tem mais dois garrafão
Cum dois canguin responsadô
Apois sim vê se num isquece
De trazê ruge e carmim
Ah se o dinheiro desse!
Eu quiria um trancilin
E mais treis metro de chita
Qui é preu fazê um vistido
E ficá bem mais bunita
Qui Madô de Juca Dido
Qui Zefa de lô Joaquim
Já qui tu vai lá prá fêra
Meu amigo trais
Essas coisinhas para mim...
Ai, clariô
Ai, ai clariô
Alvoroço
Um passo formoso é a moça
Uma árvore frondosa
é o seu dorso
Uma tarde fresca uma noite estrelada
São seu colo sereno e seus olhos de alvoroço
Um amor fervoroso põe a mão no seu rosto
E moreno ele sonha,
ele queima, ele voa
Ela roça suas asas
Ela cai sobre as casas como a luz da manhã
Ela cai sobre a gente
Como a chuva quente luminosa e temporã
E sua boca é de louça
Seu cabelo é de algodão
Seu colo é de sonhar
Seu sim é de matar
E é de morrer o seu não
É de matar o seu sim
E é de morrer o seu não
Kukukaya
São quatro jogadores
Nesta mesa
Frente afrente para jogar
São quatro cabras de peia
No desafio do jogo da bruxa
Em noite de lua cheia
São quatro jogadores
Nesta mesa
Dando as cartas
Do jogo surdo da vida
Kukukaya eu quero você prá mim
Kukukaya mas olha esse cachorro aqui
Kukukaya eu quero você aqui
Kukukaya mas preste atenção em mim
São quatro jogadores
Nesta mesa
Dando as cartas
Sem dar falsa folga a ninquém
São quatro cabras de peia
De riso dócil e rima fácil
Não vá se enganar, ê meu bem
Que eu tenho dois olhos
E eu tenho dois pés
Dor dos meus olhos
Vai pros meus pés
E dos meus pés
Prá dentro da terra
Da terra para a morte
Kukukaya...
O ovo é redondo
Ventre redondo é
Vem amor, vem com saúde
Aonde eu sou chama
Seja você brasa
Aonde eu sou chuva
Seja você água
Kukukaya...
Cumeno cum Cuentro
instrumental
Natureza
É o céu uma abóboda aureolada
Rodeada de gases venenosos
Radiantes planetas luminosos
Gravidade na cósmica camada
Galáxia também hidrogenada
Como é lindo o espaço azul-turqueza
E o sol fulgurante tocha acesa
Flamejando sem pausa e sem escala
Quem de nós pensaria apagá-la
Só o santo doutor da natureza
De tais obras, o homem e a mulher
São antigos e ricos patrimônios
Geram corpos em forma de hormônios
Criam sêres sem dúvida sequer
O homem após esse mister
Perpetua a espécie com certeza
A mulher carinhosa e indefesa
Dá à luz uma vida, novo brilho
Nove meses no ventre aloja o filho
Pelo santo poder sã natureza
O peixe é bastante diferente
Ninguém pode entender como é seu gênio
Reservas porções de oxigênio
Mutações para o meio ambiente
Tem mais cartilagem resistente
Habitando na orla ou profundeza
Devora outros peixes pra despesa
E tem época do acasalamento
revestido de escamas esse elemento
Com a força da santa natureza
O poroquê ou peixe-eletrico é um tipo genuíno
Habitante dos rios e águas pretas
Com ele possui certas plaquetas
Que o dotam de um mecanismo fino
Com tal cartilagem esse ladino
Faz contato com muita ligeireza
Quem tocá-lo padece de surpresa
Descarga mortífera absoluta
Sua auto voltagem eletrocuta
Com os fios da santa natureza
Tartaruga gostosa, feia e mansa
Habitante dos rios e oceanos
Chegar aos quatrocentos anos
Pra ela é rotina, é confiança
Guarda ovos na areia e nen se cansa
De por eles zelar como defesa
Nascido os filhotes com presteza
Nas águas revoltas já se jogam
Por instinto da raça não se afogam
E pelo santo poder da natureza
O canário é pássaro cantor
Diferente de garça e pelicano
Papagaio, arara e tucano
Todos eles com majestosa cor
O gavião é um tipo caçador
E columbiforme é a bruguesa
O aquático flamingo é da represa
A águia rapace agigantada
Eis o mundo das aves a passarada
Quanto é grande, poderosa e bela a natureza
A gazela, o antílope e o impala
A zebra e o alce felizardo
Não habitam em comum com o leopardo
O leão e o tigre-de-bengala
O macaco faz tudo mas não fala
Por atrazo da espécie, por franqueza
Tem o búfalo aspecto de grandeza
O boi manso e o puma tão valente
Cada um de uma espécie diferente
Tudo isso é obra da natureza
Acho também interessante
O réptil de aspecto esquisito
O pequeno tamanho do modquito
A tromba prênsil do elefante
A saliva incolor do ruminante
A mosca nociva e indefesa
A cobra que ataca de surpresa
Aplicar o veneno é seu mister
De uma vez mata trinta se puder
Mas isso é coisa da natureza
No nordeste há quem diga que o corão
Possui certos poderes encantados
Através de fenômenos variados
Prevê a mudança de estação
De fato no auge do verão
Ele entoa seu cântico de tristeza
De repente um milagre, uma surpresa
Cai a chuva beneefica e divina
Quem lhe diz, quem lhe mostra, quem lhe ensina?
Só pode ser o autor da natureza
Quem é que não sabe que o morcego
Com o rato bastante se parece
Nas cavernas escuras sobe e desce
Sugar sangue dos outros é seu emprego
Às noites escuras tem apego
Asqueroso ele é tenho certeza
Tem na vista sintoma de fraqueza
Porém o seu ouvido é muito fino
E um sonar aparelho pequenino
Que lhe deu o autor da natureza
Admiro a formiga pequenina
Fidalga inimiga da lavoura
No trabalho aplicado professora
Um exemplo de pura disciplina
Através das antenas se combina
Nos celeiros alheios faz limpeza
Formigueiro é a sua fortaleza
Onde cada uma delas tem emprego
Uma entra outra sai não tem sossego
Isso é coisa da santa natureza
A aranha pequena, tão arguta
De finíssimos fios faz a teia
Nesse mundo almoça, janta e ceia
É alí que passeia, vive e luta
Labirinto intrincado ela executa
Seu trabalho é bordado em qualquer mesa
Quem pensar destruir-lhe a fortaleza
Perderá de uma vez toda a esperança
Sua rede é autêntica segurança
Operária das mãos da natureza
A planta firmada no junquilho
Begônia, tulipa, margarida
As pedras riquíssimas da jazida
Com a cor, o valor, a luz, o brilho
A prata e o ouro cor de milho
O brilhante, a opala e a turqueza
A pérola das jóias da princesa
É difícil, valiosíssima e até
Alguém pensa ser vidro mas não é
É um milagre da santa natureza
O inseto do sono tsé-tsé
As flores gentís com seus narcóticos
As ervas que dão antibióticos
A mudança constante da maré
A feiúra real do caboré
no pavão é enorme a boniteza
Tem o lince visão e agudeza
E o cachorro finíssima audição
Vigilante mal pago do patrão
Isso é coisa da santa natureza ?
A cigarra cantante dialoga
Através do seu canto intermitente
De inverno a verão canta contente
E a sua canção não sai da voga
Qualquer árvore é a sua sinagoga
Não procura comida pra despesa
Sua música sinônimo de tristeza
Patativa da seca é o seu nome
Se deixar de cantar morre de fome
Mas isso a gente sabe que é da natureza |
| |
|
|
|