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Nas minhas andanças pelo mundo afora, tentando ensinar música
brasileira, já me perguntaram algumas vezes como
conseguir aquela coisa que temos em nossa música e que ninguém
consegue explicar…. Uns chamam de alegria triste, ou de triste alegria.
Outros de “saudade”…
Já fiquei horas tentando explicar. Uma vez o Al Jarreau disse que o que
ele procurava era uma música que o fizesse chorar. Será que é
algo parecido com a blue note? O Blues também chora através de
seus microtons. A escala de Blues, Jobim usou muitas vezes na brasileirice de
sua música, e Vinícius de Moraes, genialmente, traduziu em versos
como “e cai como uma lágrima de amor” (A Felicidade).
Essa coisa a que estou me referindo é fartamente encontrada na música
aqui no Brasil, não a blue note simplesmente, mas esse sentimento que
não podemos dizer que é só tristeza. É a alegria
que nos faz chorar ou a tristeza que nos dá prazer. O prazer da lágrima,
o prazer da dor. O não separar uma da outra, talvez…
E aquele Carnaval, a festa da alegria, é cheio desse tal sentimento blues,
“saudade”, alegria triste ou tristeza/alegria que nos dá
o pierrot apaixonado, o malmequer, os versos de Tristeza ou de Madureira chorou,
o lirismo das Pastorinhas e por aí vai…,
Minha lembrança do Carnaval, do Carnaval das marchas, das marchas-rancho,
dos frevos e dos sambas, do cheiro de suor e lança-perfume, dos mascarados
e das mascaradas, do sonho, das fantasias, dos bailes, do Carnaval de rua, de
toda aquela magia contida na triste alegria ou no que já foi dito acima,
tudo isso traduziu-se nos improvisos ao piano deste CARNAVAL PIANO BLUES.
Foram 5 ou 6 horas de gravação. Algumas canções
eu toquei duas, três, quatro ou at cinco vezes (takes sempre diferentes).
Outras, foi logo de primeira. Sem arranjo preconcebido, sem partitura, com o
andamento musical totalmente à vontade. Interpretação livre,
sem amarras, possibilidades infinitas, às vezes fazendo citações,
às vezes combinando duas canções num mesmo take, e em alguns
momentos quase fazendo “parceria”. Perdoem-me se mudei muitas notas
nas canções, mas o improviso me leva a viajar, não só
no blues dessas canções, mas também nas melodias internas
de suas possibilidades harmônicas.
Como eram lindas as canções de Carnaval !!!
Antonio Adolfo
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